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Memórias de um Afogado

Oi,

A volta à superfície foi lenta.
Demorada como quem reaprende a respirar.
Mas, enfim, o ar voltou a ser limpo
e a brisa dessa nova vida toca meu rosto
como um aviso silencioso de recomeço.

Por muito tempo estive submerso.
Afogado em angústias, cercado por turbilhões,
tão fundo que já não sabia mais a profundidade
em que me encontrava.
Não havia mãos, nem âncoras, nem promessas
às quais eu pudesse me agarrar.
E então percebi:
o pior já tinha acontecido.
Eu já havia me afogado.

Essa é a verdade.

Flutuava perdido no fundo de um abismo escuro,
uma escuridão vasta demais para medir.
Meus olhos não alcançavam um palmo à frente
e nenhum som me era familiar.
Aliás… som.
Quanto tempo fazia que eu não ouvia um som de verdade?
Som de vida.
De riso.
De história sendo escrita.

E agora, aqui na superfície,
tenho vivido experiências que, por estarem ausentes
dos meus sentidos há tanto tempo,
parecem ter sido moldadas exatamente
para este instante da minha existência.

Aqui, tudo se revela menor do que eu imaginava.
Não pequeno demais — apenas real.
As coisas já não carregam a grandeza
que minha mente de afogado lhes atribuía.
Aqui, o mundo faz sentido.

Quando revisito cada gesto, cada “momento” do passado,
entendo com clareza o que antes me cegava:
nunca daria certo.
Acreditei no que não era,
e hoje a prova existe —
eu a vi com meus próprios olhos.
Promessas sem raízes
nunca florescem.

Há também a confiança.
Essa matéria frágil e sagrada,
que exige inteireza em cada ato.
Ela reage da mesma forma em qualquer lugar:
no deserto, no espaço
ou no fundo de um abismo.
Quando a confiança se parte,
ela muda de estado.
Deixa de ser confiança
e vira dor constante:
um dente latejando,
uma ferida que não fecha,
uma marca que insiste em ficar.
Nadar com a confiança quebrada
é aprender, da pior forma,
o peso do afundar.

Ainda assim, sigo.

Que os novos cheiros sejam bons,
que os novos tons sejam claros,
que os novos beijos despertem
o desejo honesto do “para sempre”.
E que as lembranças encontrem morada
no museu da memória:
algumas nas salas do fogo
e da ardência de viver perigosamente;
outras nas salas silenciosas da contemplação,
onde se aprende;
e outras, inevitáveis,
no espaço do juízo.

Eu sigo aqui.
Às vezes nadando,
às vezes apenas boiando.
Mas agora enxergo a praia.
E saber que posso alcançar terra firme
quando quiser
faz toda a diferença.

Há pessoas me esperando.
Pessoas que me veem de verdade.
Que ficam.
Que ajudam.
Que não negociam afeto
nem trocam presença por conveniência.
Com elas, aprendo a nomear meus fantasmas
e, pouco a pouco, a deixá-los partir.

Aqui não existe perfeição.
E eu sei disso.
Mas existe cuidado.
Existe acolhimento.
Existe o carinho de quem sente falta
e jamais substituiria o que sente
por nada
nem por ninguém.

Talvez isso seja viver.
Talvez isso seja felicidade.
No fim, tudo depende
de quem está vivendo.

Abraço.

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